Como foi o segundo dia do CBIS 2016

A programação do segundo dia de congresso estava bem mais densa que a do primeiro e por isso precisei priorizar assuntos que estavam mais alinhados com os meus objetivos. Por exemplo, eu queria acompanhar as sessões sobre openEHR, mas decidi que este assunto vai ficar na minha lista de pendências por mais algum tempo… não muito, espero!

Pela manhã acompanhei as palestras do Simpósio Internacional de Padrões em Informática em Saúde, em especial as palestras da Márcia Elizabeth Marinho da Silva (DATASUS) sobre os padrões ISO/ABNT e os grupos de trabalho atualmente operacionais. Na sequência, falou a Andréia Cristina de Souza Santos da SMS-Maringá sobre a padronização do Sumário de Alta e, finalmente, a Dra. Zilma Silveira Nogueira Reis do HC-UFMG falou sobre a sua experiência implementando o sumário de alta no Hospital de Clínicas da UFMG.

Alguns pontos chave que me chamaram a atenção no discurso das três palestrantes são:

  1. A necessidade de engajamento da comunidade com os grupos de trabalho. Nitidamente estão faltando pessoas para ajudar, pois todas as três reforçaram a importância da participação social. Eu prontamente me voluntariei para auxiliar no Grupo de Trabalho de Segurança da Informação.
  2. O padrão para o Sumário de Alta foi publicado na norma técnica NBR 16472-1:2016
  3. A Dra. Zilma fez um comentário interessante sobre a resistência dos médicos em adotar o novo padrão. Uma das formas de “protesto” era preencher campos obrigatórios com um “ponto” ao invés de suprir a informação requisitada. Também foi necessário criar um campo de texto livre para atender as necessidades dos médicos que não eram contempladas pelo modelo padrão de sumário de alta.
  4. Neste mesmo processo o HC-UFMG migrou do sumário de alta em papel para o sumário de alta eletrônico
  5. Duas perguntas se destacaram da platéia: uma sobre o porque o sumário não utilizar tecnologias de processamento de linguagem natural, que foi prontamente rebatida pela falta de uma base de termos médicos adequada na língua portuguesa e também pelo salto tecnológico (papel para meio eletrônico) já ser suficientemente grande para arriscar com outras tecnologias. A outra pergunta foi sobre a responsabilidade médica do sumário com relação aos demais profissionais. Esta assertiva foi rebatida pela Dra. Zilma afirmando que para vários procedimentos não há necessidade da presença de um médico, mas evitou entrar a fundo na questão (que eventualmente recairia em uma discussão sobre o Ato Médico).

Ao término desta apresentação resolvi participar do Painel “Segurança da Informação no Setor de Saúde” apresentado por um time de profissionais da Deloitte (Renato Gomes, Paulo Pagliusi, José Pela). Eles destacaram a importância da computação cognitiva para o futuro da segurança da informação, apresentaram um estudo sobre a maturidade da segurança da informação em alguns serviços do Rio de Janeiro-RJ (sem especificar quais) e terminaram o painel com uma apresentação bem interessante sobre Gestão de Crise.

Eu aproveitei para questionar sobre o mítico ROI em Segurança da Informação, ilustrando com a minha experiência pessoal de 4 anos como consultora da Oracle. Na prática a resposta deles foi bastante alinhada com o trabalho que eu fazia na Oracle. Não se trata de ROI, mas sim de uma prevenção de perdas. A terceira apresentação focou bastante neste ponto. Destaques:

  1. Problemas não resolvidos viram incidentes
  2. Incidentes não resolvidos viram crises
  3. Crises podem destruir a imagem da empresa
  4. Na ordem, as competências necessárias são: Gestão de Riscos, Gestão de Continuidade de Negócios e Gestão de Crises
  5. Tempo de resposta é crucial para mitigar as crises. Para haver tempo de resposta adequado é necessário preparo (e investimentos)
  6. Gestão de Riscos: segurança (ameaças previsíveis), vigilância (monitoramento) e resiliência (ameaças imprevisíveis).
  7. Tempo e custo de recuperação são inversamente proporcionais ao nível de preparação

Na sequência eu assisti o keynote “Desafios da Formação Profissional para Atuação na Informática em Saúde” apresentado pelo Prof. Dr. Ricardo João Cruz Correia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (Portugal).

Eu acredito que este foi o ponto alto do dia, no qual o professor Ricardo elaborou sobre vários aspectos do campo da Informática em Saúde e da sua formação profissional. Ele compartilhou a sua experiência de incluir disciplinas de informática no currículo do curso de graduação em Medicina da Universidade do Porto e sobre o Mestrado em Informática Médica, também da Universidade do Porto.

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O professor Ricardo mostrou dois projetos de aplicações da informática hospitalar empregando o conceito de partilha de risco. No primeiro projeto, a proposta é negociar a partilha de risco com laboratórios e indústrias farmacêuticas com respeito a eficiência e eficácia de medicamentos. Os sistemas coletariam informações sobre a resposta do tratamento, e caso não atingisse as expectativas, os laboratórios teriam que se responsabilizar financeiramente. No segundo projeto empregou-se o mesmo conceito para a redução de taxas de cesáreas.

Finalmente, ele comentou sobre a qualidade das informações disponíveis pelos sistemas de saúde, e sobre como a Informática tende a querer enquadrar formulários fechados enquanto que a saúde é dinâmica. Ele citou o exemplo de que se um dado é obrigatório e o médico não dispõe de um dado, ele irá inventar um dado só para avançar de tela, gerando um grave problema para a produção de conhecimento científico.

Na mesma linha de raciocínio, apontou a limitação dos sistemas de banco de dados relacionais que guardam apenas as “respostas”, mas esquecem de guardar as “perguntas”. Dado a velocidade com que interfaces mudam, é provável que muitos dados já não possam mais ser interpretados. Exemplificou falando que é o mesmo que um pesquisador esperar consistência de resultado num estudo longitudinal de longo prazo mudando o formulário de pesquisa na metade do estudo. No caso dos formulários de papel (ex.: prontuários), estes tem uma qualidade melhor de informação, pois preservam a estrutura de perguntas, além de permitir emendas (por ex.: notas de rodapé). Os sistemas de informação deveriam incorporar estes conceitos, e não limitar a entrada de informações como fazem hoje.

Nas palavras finais, recomendou a leitura do livro Robôs: A Ameaça de um Futuro sem Empregos, e destacou a importância dos conceitos de Automatização e Globalização.

Eu tive a oportunidade de conversar mais alguns minutos com ele ao final da palestra e perguntei sobre o emprego de bancos de dados não-relacionais (NoSQL) nos formulários de saúde como uma alternativa para o problema de guardar a pergunta junto com a resposta (chave-valor) e ele respondeu positivamente que sim, este é o caminho.

Durante a tarde tive a oportunidade de participar de algumas poucas sessões orais e fazer um pouco de networking, mas também dediquei alguns momentos para montar a minha apresentação para a Sessão Oral de amanhã.

Quem tiver oportunidade, estarei apresentando o projeto read.dbc na sala 4 as 15:42.

Amanhã volto com o relato do meu último dia de congresso. (Não participarei na quarta feira em função do meu vôo de volta.)

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